segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

NOTAS SOBRE CRUZEIRO À ANTARTICA

Janeiro deste ano resolvemos fazer uma viagem a este continente, em um navio saindo e retornando a Buenos Aires.

Escolhemos o navio Star Princess, enorme, com a bagatela de 109.000 toneladas, uns 300 m de comprimento, largura uns 30 m, 2600 passageiros, l8 decks (ou pavimentos).

Estes navios grandes parecem mais hotéis do que navios...

Este, em particular, tem um salão de estar, no último deck, medindo a largura do navio por uns 20 m de comprimento. Oferece belas vistas, com todo o conforto e tem uma particularidade: há uma ponte de acesso dotada de uma esteira rolante (do tipo que se encontram nos aeroportos) para vencer a distância e a inclinação.

Para a minha surpresa a comida foi ótima, muito boa mesmo, embora o serviço de jantar não tenha grandes sofisticações, comparado com navios como os da Crystal Cruises.

Há um serviço de refeições estilo bufet, excelente, aberto 24 horas.

O navio é muito bem cuidado e limpo, com o pessoal atento e agradável. Os materiais de acabamento são de primeira qualidade, com uma abundância de mármores e acabamentos em latão, embora um pouco kitsch.

Foi uma gloria ver icebergs, ou pingüins, acordar com um paredão de gelo desfilando cerca de 150 m de distância ( fora os por de sol, ou nascer da lua cheia), inclusive da privacidade de nossa varanda!!!

O roteiro foi o seguinte:

Buenos Ayres, Falklands Islands, Elephant Island, Antártica (compreendendo os seguintes locais: Esperanza Station, Admiralty Bay, Neumayer Glacier, Deception Island), Cape Horn, Ushuaia, Punta Arenas, Montevideo, Buenos Ayres, em um total de 16 dias.

Ainda sobre o navio: houve um pequeno incêndio no compartimento do incinerador, debelado sem dificuldade, problemas com o içamento dos tenders (escaleres do navio que transportam os passageiros para a terra, quando o navio não pode atracar no cáis) em Punta Arenas por conta de um vento fortíssimo, e um atraso de três horas em Buenos Ayres, motivado por uma ventania que poderia tirar o navio do canal de acesso ao porto (um horror para as pessoas que tinha vôos marcados para a parte da manhã).

Os passageiros eram classe média americana, como sempre muito educados, mas com uma boa dose de obesos e superobesos (havia um casal impressionante, algo como 200 kg cada), fora a turma de cadeira de rodas, balões de oxigênio, inclusive um cego com cachorro guia, além de vários tipos exóticos.

Uns cem brasileiros (educados e agradáveis) além de outra tanto de chineses de Vancouver (migrados de Hong Kong), e mais umas 30 ou 40 nacionalidades...

O entretenimento é fraquinho em matéria de shows, embora a parte musical seja aceitável; biblioteca pobre; não há vídeos, embora os programas de TV tenham sido muito bons – CNN. TNT, Geographic M, ESPN e outros.

Porém, por metade do preço da Crystal tudo muito aceitável...

FALKLAND ISLANDS

Vulgo Malvinas para os argentinos é uma parada meio boba, embora cheia de significado histórico em especial por conta da desastrada invasão feita pelos generais argentinos. Como herança desta guerra a Ilha foi infestada por minas, sendo que inúmeras áreas ainda garantem uma boa e rápida morte.

ANTÁRTICA

O nome vem do grego, ANTARKTIKOS, que significa o contrário de Ártico. Ë um continente com 14 milhões de quilômetros quadrados, quase o dobro da área do Brasil, com 98% coberto por gelo.Também conhecida como Antartida.

Há regras específicas para os navios que entram na área, considerada como Antártica a partir da latitude 60º Sul.

Por exemplo, os serviços de lavanderia do navio são suspensos, as piscinas são esvaziadas, nenhuma descarga é permitida, e é claro que nada pode ser deixado que afete o ambiente. Há normas para navegação para evitar perturbar de qualquer forma os animais – os cetáceos (vejam quantas variedades: baleia azul, mink, humphack, fin, sei, sperm, entre outras, fora as orcas), os elefantes marinhos, a foca “fur” e a foca leopardo.

Os pássaros compreendem os famosos Albatroses, inclusive o Gigante pesando uns 12kg, com algo como 3,60 m entre as pontas das asas!

E os pingüins? Descobri que há 18 espécies, sendo que 9 vivem no gelo e as outras 9 em águas mais quentes, inclusive junto ao Equador (Ilhas Galápagos).

O maior deles é o pingüin Imperador (da excelente fita a Marcha dos Pingüins) que medem um metro de altura, pesam uns 45 kg, e que podem mergulhar até a profundidade de 500m, Em contrapartida, os menores pesam por volta de 1,2 kg, tem uns 30 cm de altura e pescam junto à superfície do mar (máximo de uns 20m).

E os icebergs? Constituem a razão principal de uma viagem dessas.

Recomendo que entrem no Google, com o título icebergs. Mas para adiantar vamos a alguns fatos.

Um iceberg é uma massa de gelo de água doce, do qual apenas 1/7 emerge do oceano. Como vimos bergs com mais de 40 m de altura, verifica-se que a parte oculta é da ordem de 240 m.

Já foram observados bergs no Atlântico Norte com 168 metros emergindo do oceano, oriundos das geleiras da Groelândia.

Outra variedade é o berg tabular, oriundo do IceShelf (plataforma de gelo?) da Antártica, Vimos vários com tamanhos de uns 30 a 40 km de extensão também com uma altura estimada de uns 60m. No ano 2000 um pedaço deste iceshelf soltou-se no mar de Ross, medindo 295 km de comprimento por 37 de largura, com uma área de 11.000 km2 (algo como 10 vezes a área da Cidade do Rio, com uma massa estimada de 3 bilhões de metros cúbicos.

A tabela abaixo se refere a bergs oriundos de geleiras.

Size

Size Category

Height

Length

Growler

Less than 1 metre (3 ft)

Less than 5 metres (16 ft)

Bergy Bit

1-4 meters (3-13 ft)

5-14 meters (15-46 ft)

Small

5-15 meters (14-50 ft)

15-60 meters (47-200 ft)

Medium

16-45 meters (51-150 ft)

61-122 meters (201-400 ft)

Large

46-75 meters (151-240 ft)

123-213 meters (401-670 ft)

Very Large

Over 75 meters (240 ft)

Over 213 meters (670 ft)

Esta tabela (Wilkpedia) dá uma idéia da variedade dos bergs provindos de geleiras.

Acho também interessante comentar sobre os formatos (também via Wilkipedia):

Shape

In addition to the above size classification, there is also a type of classification based on shape. The two basic types of iceberg forms are tabular and non-tabular. Tabular icebergs have steep sides and a flat top, much like a plateau, with a length-to-height ratio of more than 5:1[6]. Non-tabular icebergs have different shapes, and include[7]:

* Dome: An iceberg with a rounded top.

* Pinnacle: An iceberg with one or more spires.

* Wedge: An iceberg with a steep edge on one side and a slope on the opposite side.

* Dry-Dock: An iceberg that has eroded to form a slot or channel.

* Blocky: An iceberg with steep, vertical sides and a flat top. It differs from tabular icebergs in that its shape is more like a block than a flat sheet.

Vejam como os bergs são formados: o movimento do oceano solapa a base da plataforma de gelo e solta os blocos

Ou então a massa de gelo escorregando pela encosta, atinge o mar e se fratura em bergs.

Esta foto é interessante por dar uma noção melhor do tamanho do berg.

O mapa abaixo contem o nosso roteiro na Antártica.

ELEPHANT ISLAND

No início do século XX o explorador inglês Shackleton fez uma viagem à Antártica, mas seu navio ficou preso no gelo e foi esmagado. Conseguiram atingir esta ilha totalmente inóspita nos escaleres do navio, quando Shackleton com mais uns poucos em um barco pequeno navegou por 1.300 km até atingir a ilha Georgia do Sul onde conseguiu obter auxílio para buscar seus companheiros.

Esta ilha foi a nossa introdução ao reinado dos bergs.

Vimos desde os tabulares até os normais (invenção minha, para diferenciar...)

Foram 4 horas de deslumbramento, em que cada novo berg superava o anterior.

A temperatura do ar e do mar giravam em torno de 0ºC. Neste dia houve de tudo: sol, neve, neblina.

Em determinado momento, quando estava na cabina, olhei para fora e vi um monstruoso berg bem pertinho.

Todos os corrimãos de aço inox do convés estavam com uma fina camada de gelo, o que era um terrível problema para os navios à vela, pois as velas, cabos, mastros congelavam e ficava difícil manobrar o navio,

A Elephant Island fica a 61º13’ S de Latitude e 54ºW de longitude e fica a 1769 milhas marítimas de Buenos Aires.

Nosso programa na Antártica incluía os seguintes locais:

ESPERANZA STATION

No dia seguinte, 16 de janeiro, no caminho para Esperanza Station, encontramos uma enorme quantidade de bergs, um pouco menores e de formas muito variadas, fora os tipos menores chamados growlers e bergys. Temperatura um pouco abaixo de 0º C e mar sempre calmo. Na escala de “mar do navio” temos

Smooth - Wavelets – ondas com altura máxima de 0,50m

Slight - ondas até 1,25

Moderate - ondas até 2,50

Nenhuma dessas ondas faz o navio jogar e o pior mar que tivemos foi sempre o Moderate.

ADMIRALTY BAY

No meio do dia percebemos que a nossa rota tinha sido modificada tal a quantidade de bergs no caminho da Esperanza Station.

Fomos então para esta Admiralty Bay, onde há uma estação científica Polonesa.

Tivemos direito a ver enormes colônias de pingüins, baleias, neve, sol.

As19:45 com sol e céu azul, a neve e gelo das montanhas brilhavam. A neve tinha trechos que pareciam alisados com espátula, brilhantes (imaginem a cobertura de um bolo, alisada com espátula).

Há dois pingüins neste berg.

E toda esta impressionante beleza pode ser apreciada até a hora do por de sol, 23:45, com céu claro e um sem fim de bergs.

NEUMAIER GLACIER

No dia 17 tive um momento de glória: Dormimos com as cortinas da porta que abre para a varanda abertas. Acordei as 06:15 e ao olhar vi uma parede de neve e gelo há uns 150 m do navio – branca, com o sol batendo; acima, uma montanha com o cume reto. O navio seguiu ao longo desta parede por horas, sempre com o sol batendo na montanha e nos bergs. Havia bergs de todos os tamanhos e eu os comparava com “um fiat, ou um mercedes, ou um ônibus, ou uma carreta scania”

A neve e o gelo, conforme a incidência da luz, parecia branca, cinza claro, cinza mais escuro. Muitos “growlers” – os tais bergs de um metro de altura e muitos pedaços de gelo, restos mortais de bergs maiores.

Passamos pelo Bransfield Strait que separa o Palmer Arquipélago da Dancor Coast; em seguida entramos no Gerlache Strait, Newmayer Channel em direção ao sul da Wiencke Island.

A parede de gelo continua seguindo do nosso lado do navio (o tal do starboard) e volta e meia “pequenos bergs” de 200 x 20 x 3 m

As 11:30 da manhã tínhamos tido 5 horas de glória, com direito a baleias, pingüins, bergs de tamanhos variados, montanhas nevadas, sol e reflexos na água.

As 12:00 apareceram 5 orcas ao lado do navio, mais um berg com dúzias de pingüins tomando banho de sol, continuando os picos nevados com 300 a 500 m de altura, alguns cobertos por nuvens.

As geleiras terminam no mar e podem ser vistas as fendas que irão gerar os bergs.

Retornamos pelo lado norte da Wiencke Island, que deve medir uns 20 km e 400 m de altura, granito, gelo e neve, coberta por uma nuvem.

DECEPTION ISLAND

No dia 18 abordamos a Deception Island, já sem aquela orgia de bergs. Um miserável berg tamanho um caminhão de 5 t, embora bem ao longe avistasse um enorme.

A ilha tem imensas colônias de pingüins e, na verdade é um vulcão, com uma “caldera” nome que é dado quando a cratera é fendida e invadida pela água do mar,

Nosso navio ficou ao largo, mas navios menores podem entrar e os passageiros descem de zodiacs (barcos de borracha), com direito a banho de mar!

A seguir a entrada da “caldera”:

A seguir vista do Google Earth mostrando Cape Horn, Ushuaia e Punta Arenas:

CAPE HORN

Impossível um mar mais manso, ventos moderados.

Nada que se assemelhe ao terror dos navegantes durante séculos.

USHUAIA

Nada de muito especial, com um parque nacional muito badalado mas meio sem graça, depois dos icebergs, e um passeio de barco simpático.

CANAL DE BEAGLE

Uma maravilha de geleiras.

PUNTA ARENAS

Cidade chilena, bem sem graça

ESTREITO DE MAGALHÃES

De importância história e uma maneira de fugir do Cape Horn.

Navegamos à noite...

RIO DE LA PLATA

MONTEVIDEO

Cidade com aspecto pobre. A praia de Pocitos, fluvial, é bem bonita.

Para mim o mais interessante foi o monumento ao Graf Spee, navio de guerra alemão afundado depois de uma batalha naval com os ingleses, II Grande Guerra.

BUENOS AYRES

Assistimos a um belo espetáculo de tango, no Centro Cultural Borges, Galeria Pacífico, baratissimo (US$10 a entrada) simplesmente deslumbrante.

Mais um bife de chorizo e uma panqueca de manzana...

CONCLUSÃO

Adoramos a viagem. É certo que pode ser feita de maneira mais emocionante, em um barco menor, com uns 150 passageiros, em que se pode descer nos zodiacs e fazer cócegas na barriga dos pingüins. Talvez ainda a faça.

Mas o principal é o fato de termos tido um tempo magnífico – céu azul, sol, mar como um lago. De acordo com um oficial que já tinha feito esta viagem 8 vezes apenas em duas ele teve este tempo maravilhoso. Duas vezes o navio foi obrigado a voltar por conta do mau tempo e nas outras 4 havia uma constante neblina.

Para terminar, uma foto minha, meio congelado.

Notas

Alguns detalhes curiosos:

Starboard and Port side.

Antes do uso do leme na popa do navio usava-se um longo remo terminado em uma pá ou lâmina, conhecido como steer board. Como a maior parte dos pilotos era dextro, ficavam na popa olhando para a frente do navio. Com o tempo virou starboard. O lado esquerdo do navio era então usado para encostar nos portos, para não danificar o “remo”, de onde surgiu o termo “port”.

Nós

Um nó é uma milha náutica por hora; uma milha náutica corresponde a um minuto de latitude; Uma milha náutica é igual a 1,852 km.

A velocidade média do navio oscilou entre 21,8 e 7,2 nós, dependendo do trajeto.

Vejam a esteira que o navio deixa:

Distância percorrida

O navio percorreu 4.724 milhas náuticas

Latitude

O navio atingiu a latitude de 64º 57,5’S

Considerando que já estive no Nordcap, Cabo Norte, o ponto mais ao Norte da Europa, 71º10,21’ N, falta pouco para atingir os dois Polos...

JUST HOW MUCH BEAUTY CAN YOU TAKE?

JUST HOW MUCH ADVENTURE CAN YOU STAND?

Alberto

Janeiro de 2008

Vide complementos a seguir

O mapa abaixo é relativo à viagem de Shackleton .

Map of the routes of the ships Endurance and Aurora, the support team route, and the planned trans-Antarctic route of the British Imperial Trans-Antarctic Expedition led by Ernest Shackleton in 1914–15. Red: voyage of Endurance. Yellow: drift of Endurance in pack ice. Green: sea ice drift after Endurance sinks. Blue: voyage of James Caird. Turquoise: planned trans-Antarctic route. Orange: voyage of Aurora to Antarctica. Pink: retreat of Aurora. Brown: supply depot route

O trecho a seguir é um relato da viagem para a busca de socorro, em um barco aberto de 6,5 m de comprimento

At midnight I was at the tiller and suddenly noticed a line of clear sky between the south and south-west. I called to the other men that the sky was clearing, and then a moment later I realised that what I had seen was not a rift in the clouds but the white crest of an enormous wave. During twenty-six years' experience of the ocean in all its moods I had not encountered a wave so gigantic. It was a mighty upheaval of the ocean, a thing quite apart from the big white-capped seas that had been our tireless enemies for many days. I shouted, "For God's sake, hold on! It's got us!" Then came a moment of suspense that seemed drawn out into hours. White surged the foam of the breaking sea around us. We felt our boat lifted and flung forward like a cork in breaking surf. We were in a seething chaos of tortured water; but somehow the boat lived through it, half-full of water, sagging to the dead weight and shuddering under the blow. We baled with the energy of men fighting for life, flinging the water over the sides with every receptacle that came to our hands, and after ten minutes of uncertainty we felt the boat renew her life beneath us.

Ernest Shackleton,

Fotografia real do barquinho usado.